Publication year: 2024
Theses and dissertations in Portugués presented to the Universidade Federal de Minas Gerais to obtain the academic title of Doutor. Leader: Mendes, Mariana Santos Felisbino
Introdução:
A adolescência é uma fase da vida marcada por experimentação e a iniciação sexual, muitas vezes acompanhadas de um despreparo tanto decorrente da estreia, quanto decorrente da falta de acesso e de informação sobre meios para uma vivência segura, de forma a prevenir uma gestação e infecções sexualmente transmissíveis. A gestação na adolescência decorre de diversas vulnerabilidades e sua prevenção se dá pelo uso de métodos contraceptivos. No entanto, o uso de contraceptivos por adolescentes pode ser determinado por fatores individuais, familiares e comunitários, além do contexto geográfico ao qual o adolescente está inserido. A escassez de estudos que visam avaliar quais sejam esses fatores relacionados ao uso de contraceptivos entre os adolescentes tem sido observada no contexto brasileiro. E, quando são realizados, em sua maioria, se concentram apenas nos fatores individuais. Objetivo:
Investigar a frequência, o padrão e os fatores individuais, intrapessoais, comunitários e contextuais associados ao uso de métodos contraceptivos modernos e contracepção de emergência por adolescentes escolares brasileiros. Métodos:
estudo transversal que analisou dados nacionais de 3.547 e 36.118 adolescentes escolares de 13 a 17 anos de idade respondentes sobre o uso de métodos contraceptivos na Pesquisa Nacional sobre Saúde do Escolar (PeNSE) nos anos 2015 e 2019, respectivamente. Os desfechos principais foram uso de contracepção moderna, tipo de método moderno utilizado, e uso de contracepção de emergência. Para determinar os fatores individuais, familiares e comunitários, as variáveis explicativas foram organizadas de acordo com o modelo sociológico, desenvolvido por Bronfenbrenner, considerando as múltiplas relações do desenvolvimento e os fatores que afetam a saúde, adaptado para as questões relativas à saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes. Estimou-se as razões de proporções de uso de métodos contraceptivos modernos, de acordo com os fatores individuais, familiares e comunitários, com intervalos de 95% de confiança, por meio da regressão binomial negativa. Essas estimativas também foram realizadas para o uso de contracepção de emergência. Por fim, utilizou-se o modelo multinível para avaliar a variabilidade do uso de método moderno e contracepção de emergência nos estados brasileiros e os fatores contextuais que poderiam explicar essa variabilidade. Resultados:
Em 2019, 74,0% (IC95%: 73,0-75,0) dos adolescentes de 13 a 17 anos, que já tiveram iniciação sexual, utilizaram métodos contraceptivos modernos na última relação sexual e 37,9% (IC95%: 36,8 – 39,0) utilizaram contracepção de emergência alguma vez na vida. Os contraceptivos mais utilizados por esses adolescentes foram o preservativo (70,3%, IC95%: 69,1-65,2), e a pílula (24,8%, IC95%: 23,7-26,0), com diferenças nas respostas de acordo com o sexo e a faixa etária. Os fatores individuais como sexo feminino, histórico de violência doméstica, importunação sexual ou violência sexual; e, o fator comunitário de morar em áreas urbanas se associaram negativamente ao uso de métodos modernos, enquanto procurar o serviço de saúde no último ano e ter alta supervisão dos pais se associou ao uso desses métodos. Outro resultado importante desta tese é sobre o uso de contracepção de emergência alguma vez na vida, foram observados que os fatores individuais como ser do sexo feminino, estar na faixa etária de 16 e 17 anos, ter histórico de violência sexual e ter procurado o serviço de saúde no último ano; bem como o fator familiar de morar apenas com o pai, ou com nenhum dos pais ou apenas com a mãe; e, o fator comunitário e político de morar nas regiões Centro-Oeste e Sudeste aumentam as chances de uso desse tipo de contracepção. Também foi observado variabilidade no uso de métodos modernos entre as UF brasileiras, morar em UF com alto valor de IDH e SDI aumentou a chance do uso de métodos contraceptivos modernos. Em contrapartida, é visto que essas UF apresentam as menores médias de uso de contracepção de emergência. Conclusão:
O uso de métodos contraceptivos modernos por adolescentes escolares brasileiros é elevado, entretanto, houve redução no uso desses métodos entre os anos de 2015 e 2019, o que reforça a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas a saúde sexual e reprodutiva dessa população. O mix contraceptivo usado pelos adolescentes brasileiros é mais obsoleto do que o da população adulta. Assim, esse conjunto de estudos aponta para a necessidade de garantia do acesso aos métodos contraceptivos pelos adolescentes, levando em considerações as especificidades dessa fase da vida e os fatores individuais, familiares, comunitários e contextuais associados ao uso desses métodos. Outro aspecto são as desigualdades territoriais, que quando mais desenvolvidos há maior acesso. O acesso à contracepção de emergência é importante para garantia de direitos e seu alto uso reforça os limites das políticas, programas e serviços de saúde para garantia dos direitos sexuais e reprodutivos dos adolescentes brasileiros, devido aos problemas de acesso para o uso regular de métodos modernos.
Introduction:
Adolescence is a phase of life marked by experimentation and sexual initiation, often accompanied by unpreparedness, both due to the debut and the lack of access to and information about ways of living safely, in order to prevent pregnancy and sexually transmitted infections. Pregnancy in adolescence is the result of various vulnerabilities and can be prevented through the use of contraceptive methods. However, the use of contraceptives by adolescents can be determined by individual, family and community factors, as well as the geographical context in which they live. However, there is a scarcity of studies aimed at evaluating these factors related to contraceptive use among Brazilian adolescents. And when they are carried out, most of them focus mainly on individual factors. Objective:
To investigate the frequency, pattern and individual, intrapersonal, community and contextual factors associated with the use of modern contraceptive methods and emergency contraception by Brazilian school adolescents. Methods:
Cross-sectional study that analyzed national data from 3,547 and 36,118 adolescent schoolchildren aged 13 to 17 years who answered about the use of contraceptive methods in the National Survey on School Health (PeNSE) in 2015 and 2019, respectively. The main outcomes were use of modern contraception, type of modern method used, and use of emergency contraception. To determine the individual, family and community factors, the explanatory variables were organized according to the sociological model developed by Bronfenbrenner, considering the multiple relationships of development and the factors that affect health, adapted to issues relating to adolescent sexual and reproductive health. The ratios of proportions using modern contraceptive methods were estimated according to individual, family and community factors, with 95% confidence intervals, using negative binomial regression. These estimates were also made for EC use. Finally, the multilevel model was used to assess the variability of modern method and emergency contraception use in Brazilian states and the contextual factors that could explain this variability. Results:
In 2019, 74.0% (95%CI: 73.0-75.0) of adolescents aged 13 to 17 who had already had sexual initiation used modern contraceptive methods during their last sexual intercourse and 37.9% (95%CI: 36.8 - 39.0) had used emergency contraception at least once in their lives. The contraceptives most used by these adolescents were condoms (70.3%, 95%CI: 69.1-65.2) and the pill (24.8%, 95%CI: 23.7-26.0), with differences in responses according to gender and age group. Individual factors such as female gender, a history of domestic violence, sexual harassment or sexual violence, and the community factor of living in urban areas were negatively associated with the use of modern methods, while seeking health care in the last year and having high parental supervision were associated with the use of these methods. Another important result of this thesis is that individual factors such as being female, being in the 16-17 age group, having a history of sexual violence and having sought health care in the last year; as well as the family factor of living only with the father, or with neither parent or only with the mother; and the community and political factor of living in the Midwest and Southeast regions increased the chances of using this type of contraception. There was also variability in the use of modern methods between Brazilian states, with living in states with a high HDI and SDI increasing the likelihood of using modern contraceptive methods. On the other hand, these states have the lowest average use of emergency contraception. Conclusion:
The use of modern contraceptive methods by Brazilian school adolescents is high, however, there was a reduction in the use of these methods between 2015 and 2019, which reinforces the need to strengthen public policies aimed at the sexual and reproductive health of this population. The contraceptive mix used by Brazilian adolescents is more obsolete than that of the adult population. Thus, this set of studies points to the need to guarantee access to contraceptive methods for adolescents, taking into account the specificities of this stage of life and the individual, family, community and contextual factors associated with the use of these methods. Another aspect is territorial inequalities, where access is greater in more developed areas. Access to emergency contraception is important for guaranteeing rights and its high use reinforces the limits of health policies, programs and services to guarantee the sexual and reproductive rights of Brazilian adolescents, due to the problems of access to the regular use of modern methods.