Retomando o prazer em comer para mulheres em situação de rua: uma estratégia contra-hegemônica para construir Segurança Alimentar e Nutricional
Reclaiming the pleasure of eating for women experiencing homelessness: a counter-hegemonic strategy to build Food and Nutrition Security

Publication year: 2024
Theses and dissertations in Portugués presented to the Universidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública to obtain the academic title of Doutor. Leader: Scagliusi, Fernanda Baeza

A expressão "em situação de rua" refere-se a pessoas que pernoitam em logradouros públicos e casas de acolhimento. Mulheres em situação de rua (MSR), especialmente negras e/ou trans, são as mais vulneráveis a violências físicas e psicológicas nas ruas. A insegurança alimentar e nutricional vivenciada por MSR vai além da simples falta de comida, englobando a negligência quanto ao que elas desejam comer e consideram adequado e saudável. Interessou-nos olhar para os prazeres alimentares de MSR, entendendo como esses prazeres podem comunicar suas formas de construção de si e resistências frente aos processos neocoloniais que deslegitimam suas subjetividades. Para isso, nos baseamos no feminismo negro e nas teorias de biopolítica e necropolítica, olhando para técnicas de poder que disciplinam e controlam prazeres, desejos e modos de existência de MSR. Objetivamos identificar, compreender e discutir os significados atribuídos ao prazer de comer pelas MSR no centro da cidade de São Paulo. Realizamos trabalho com perspectiva etnográfica entre 2018 e 2022, utilizando observações participantes e não participantes, entrevistas semiestruturadas e diário de campo. Analisamos os dados pelo Método de Análise de Conteúdo Temática, o que resultou em temas e subtemas que fundamentaram artigos científicos, capítulos de livro e um produto técnico.

Observamos que:

1) o prazer de comer está diretamente relacionado à justiça social; 2) os desejos e prazeres das participantes expressam o desejo de respeito por suas memórias afetivas e saberes construídos ao longo da vida; 3) o prazer está vinculado a sensos de dignidade, pertencimento, lar e autonomia; 4) as estratégias diárias das MSR para acessar comida já consideram o prazer, tendo no cozinhar e no que chamam de atos de manguear formas de resistência e desejo; e 5) ao cozinhar e manguear, MSR constroem a possibilidade de se alimentarem com comidas menos monótonas e mais conectadas ao que querem para si mesmas. Em último artigo, exploramos prazeres que vão além da alimentação, em que formas de expressão artística foram lidas como ato de resistência, transcendendo a comida e afirmando as existências de MSR. Como produto técnico, apresentamos o contexto de um curso para formação de agentes populares em alimentação, voltado a pessoas em situação de rua ou que já a vivenciaram. Esse curso foi construído em parte por conhecimentos gerados nesta pesquisa, em que fomentamos a centralidade de prazeres e desejos na produção de saberes sobre alimentação e cozinha. Concluímos que o prazer na alimentação é uma forma de resistência à estereotipação de precariedade sofridas pelas MSR. Desejar e sentir prazer ao comer é uma luta pela retomada de direitos e pela memória de si. Para isso, é crucial que as políticas públicas incentivem e promovam os prazeres de MSR, para construção da Segurança Alimentar e Nutricional. Medidas essenciais incluem o acesso à moradia, ao ato de cozinhar, ao comer à mesa e à liberdade de decisão sobre a própria alimentação. É necessário implementar estratégias que apoiem as MSR em suas escolhas alimentares, garantindo seus prazeres, autonomia e dignidade.
The term "homelessness" refers to individuals who sleep in public spaces and shelters. Women experiencing homelessness (WeH), particularly Black and/or trans women, are the most vulnerable to physical and psychological violence in the streets. The food and nutrition insecurity experienced by WeH goes beyond the simple lack of food, encompassing the neglect of what they desire to eat and what they consider appropriate and healthy to eat. We were interested in understanding WeH food pleasures. In addition to how these pleasures may communicate their self-constructions and resistance against neocolonial processes that delegitimize their subjectivities. To this end, we drew on Black feminism and theories of biopolitics and necropolitics, focusing on techniques of power that discipline and control the pleasures, desires, and ways of existence of WeH. So, we aimed to identify, understand, and discuss the meanings attributed to the pleasure of eating by WeH in central São Paulo. We conducted a study from an ethnographic perspective, between 2018 and 2022, employing participant and non-participant observations, semi-structured interviews, and field diaries. We analyzed data using the Thematic Content Analysis Method, which resulted in themes and subthemes that supported the development of scientific articles, book chapters, and a technical product.

Our findings revealed:

1) the pleasure of eating is directly related to social justice; 2) the desires and pleasures expressed by participants reflect their wish for respect for their affective memories and knowledge built over their lives; 3) pleasure is linked to senses of dignity, belonging, home, and autonomy; 4) the daily strategies employed by WeH to access food already incorporate pleasure. Cooking and what they call "manguear" (a term used to refer to ability to asked for food) were forms of resistance and of achieving some eating pleasure; because through it, WeH create the possibility of eating food that is less monotonous, more flavorful, and more aligned with what they desire for themselves. In a final article, we explored pleasures beyond food, that forms of artistic expression were understood as acts of resistance, transcending food and asserting the existence of WeH. As a technical product, we presented the context of a training course for popular agents in food, aimed at individuals experiencing or who have experienced homelessness. This course was partly built from the knowledge constructed in this research, and we emphasized the centrality of pleasures and desires in the production of knowledge about food and cooking. We concluded that the pleasure in eating constitutes a form of resistance to the stereotyping of precariousness faced by WeH. Desiring and feeling pleasure in eating is a struggle for the reclaiming of rights and the memory of oneself. To this end, it is crucial that public policies encourage and promote the pleasures of WeH to build Food and Nutrition Security. Essential measures include access to housing, the act of cooking, eating at a table, and the freedom to make decisions about one's own food. It is necessary to implement strategies that support WeH in their food choices, ensuring their pleasures, autonomy and dignity.

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