(Sobre)vivências e percursos terapêuticos em saúde de mulheres com ideação e tentativa de suicídio: gênero como categoria analítica
(Over)experiences and therapeutic pathways in the health of women with suicidal ideation and attempts: gender as an analytical category

Publication year: 2024
Theses and dissertations in Portugués presented to the Universidade Federal do Rio Grande do Norte to obtain the academic title of Doutor. Leader: Amorim, Karla Patrícia Cardoso

O suicídio é um importante problema de saúde pública mundial e consiste em um fenômeno humano complexo e multideterminado. No Brasil, as taxas desse agravo continuam a aumentar a cada ano. O comportamento suicida pode ser dividido em fatal (suicídio consumado) e não fatal, cuja manifestação ocorre pela ideação e tentativa de suicídio. Embora os homens morram mais por essa causa, são as mulheres que estão mais expostas à ideação e à tentativa de suicídio. Além disso, as mulheres buscam mais atendimento nos serviços de saúde e, consequentemente, estão mais sujeitas às atitudes dos profissionais de saúde, dependendo de estratégias de gestão para terem acesso a um cuidado integral. Este estudo tem como objetivo compreender as vivências sociobiográficas e os percursos terapêuticos em saúde de mulheres com ideação e tentativa de suicídio sob a perspectiva de gênero. O estudo consiste em uma pesquisa qualitativa de abordagem hermenêutica e dialética. Essa abordagem tem como base a filosofia hermenêutica de Gadamer e a dialética de Habermas, como uma arte contemporânea da interpretação. O cenário do estudo é a Rede de Atenção Psicossocial de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte. A coleta de dados ocorreu entre junho de 2022 e julho de 2024, utilizando uma perspectiva de triangulação com múltiplas fontes de dados: entrevistas semiestruturadas, prontuários, diário de campo e desenhos. A análise dos dados ocorreu por meio da interpretação hermenêutica e dialética, com o auxílio do software NVivo® versão 14. Participaram da pesquisa dez mulheres com ideação ou tentativa de suicídio, além de quatro profissionais de saúde e três gestores da rede. A maioria das mulheres participantes é jovem, com 60% entre 18 e 35 anos. Metade se identifica como branca e a outra metade como negra. A maioria é solteira (40%) e tem o ensino médio completo (40%). Em relação à religião, 50% são católicas. A maior parte mora com familiares (70%) e 40% tem uma renda familiar de até um salário mínimo.

Os profissionais de saúde são:

enfermeiras, médica psiquiatra e assistente social e, atuam em diversos dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial. Os gestores atuam no nível central da Secretaria Municipal de Saúde e no Centro de Atenção Psicossocial e possuem formação em psicologia e enfermagem. O estudo explorou diversos fatores que permearam as vivências sociobiográficas das mulheres, como estereótipos de gênero, precariedade socioeconômica, estigmatização dos transtornos mentais e violência de parceiros íntimos. A autolesão não suicida aparece como uma forma de alívio emocional. Essas mulheres buscaram diversos serviços de saúde da Rede de Atenção Psicossocial, como os Centros de Atenção Psicossocial, Unidades Básicas de Saúde, Unidades de Pronto Atendimento e Hospitais Psiquiátricos. As percepções dos profissionais de saúde sobre o comportamento suicida feminino influenciam diretamente suas atitudes, e a formação de vínculos desponta como uma estratégia de cuidado eficaz. De modo conclusivo, o estudo observa que, apesar dos desafios enfrentados pela Rede de Atenção Psicossocial, como a falta de infraestrutura e de recursos humanos, o estudo evidenciou o potencial da rede para oferecer cuidado humanizado e integral às mulheres em situação de vulnerabilidade. A pesquisa ressalta ainda a necessidade de políticas que integrem aspectos de gênero nas estratégias de cuidado na atenção psicossocial (AU).
Suicide is a significant global public health issue and is characterized as a complex and multifaceted human phenomenon. In Brazil, the rates of this problem continue to rise each year. Suicidal behavior can be divided into fatal (completed suicide) and non-fatal, which manifests as suicidal ideation and suicide attempts. Although men die more frequently from this cause, women are more exposed to suicidal ideation and attempts. Additionally, women seek health services more often, and as a result, they are more subject to the attitudes of health professionals, depending on management strategies to access comprehensive care. This study aims to understand the sociobiographical experiences and therapeutic pathways in healthcare of women with suicidal ideation and attempts from a gender perspective. It is a qualitative study with a hermeneutic and dialectic approach, based on Gadamer's hermeneutic philosophy and Habermas' dialectics as a contemporary interpretive art. The study was conducted within the Psychosocial Care Network (RAPS) in Natal, Rio Grande do Norte. Data collection took place between June 2022 and July 2024, using a triangulation perspective with multiple data sources: semi-structured interviews, medical records, field notes, and drawings. Data analysis was performed using hermeneutic and dialectic interpretation with the aid of NVivo® software (version 14). Ten women with suicidal ideation or attempts, four healthcare professionals, and three managers from the network participated in the research. The majority of participants are young, with 60% between 18 and 35 years old. Half identify as white and the other half as Black. Most are single (40%) and have completed high school (40%). Regarding religion, 50% are Catholic. The majority live with family members (70%) and 40% have a family income of up to one minimum wage. The healthcare professionals include nurses, a psychiatrist, and a social worker, working in various Psychosocial Care Network services. The managers work at the central level of the Municipal Health Department and at the Psychosocial Care Centers, with backgrounds in psychology and nursing. The study explored various factors impacting the sociobiographical experiences of the women, such as gender stereotypes, socioeconomic vulnerability, mental health stigmatization, and intimate partner violence. Non-suicidal selfharm appears as an emotional relief mechanism. These women sought various services within the Psychosocial Care Network, including Psychosocial Care Centers, Primary Health Units, Urgent Care Units, and Psychiatric Hospitals. Healthcare professionals' perceptions of female suicidal behavior directly influence their attitudes, and building relationships is an effective care strategy. In conclusion, the study highlights that despite challenges faced by the Psychosocial Care Network, such as lack of infrastructure and human resources, the network has the potential to provide compassionate, comprehensive care to vulnerable women. The research also emphasizes the need for policies that incorporate gender aspects into psychosocial care strategies (AU).

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